Páginas

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Abraços por relações que reverberem

 
Os abraços selam o prazer dos encontros, produzem sorrisos, embalam emoções. Quando se dança, quando se escreve, quando se recebe, quando se dá, quando se produz uma imagem: sempre Uma Coreografia de Relações.
 

Bater em portas, acionar compreensões



Lá vai o corpo contemporâneo abrir portas, lá vai a dança, acionar compreensões, sensações, entendimentos. Cada qual circunstanciado por repertórios próprios, de forma a elaborar novas instâncias de entendimentos, novos olhares para a arte.

Assim, bate-se à porta da professora de inglês Sueli de Lacerda Santos, que assiste e elogia a criatividade da ideia. Mas ela vai além em sua opinião, tocando numa questão bem específica:

“O foco, o olho dela vai para coisas que muitos não estão nem aí.”

Numa sala do HemoRio, assistente de desenvolvimento organizacional e bailarina Marisa Mendes reúne uma turma de alunos num treinamento que, dentre outras coisas, fala sobre consciência corporal. Então, uma dança adentra à sala, surpreende o cotidiano dos alunos.

 A analista de sistemas Luna Ribeiro falou:

“É muito simples, dá um recado surreal com muito pouco. Gosto disso, do que faz as pessoas pensarem.”

O estudante de jornalismo Philippe Matta analisou:

“É simples, rápido, mas dá outro ar ao ambiente.”

Noutra sala de executivos que recebeu Dança Contemporânea em Domicílio entre mesas e divisórias, os olhares novamente foram tomados.

O funcionário Marco Aurélio couto disse:

“É um trabalho bem apanhado, reflexivo, trazendo motivação do que o corpo pode fazer as informações que pode trazer para outros projetos de qualidade.”

Mais uma parada, novo ambiente de escrivaninhas, computadores e tal.  Nova impressão. Desta vez de Patrick Mendes.
 
“É uma expressão em que, tanto o corpo quanto a palavra, criam um movimento que faz com que a gente não sinta falta da música, que é recorrente junto com a dança. É a expressão do corpo o que mais importa.”

 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pegadas de passos: vetores da dança

 

Pegadas e passos, olhares de estranhamentos, ângulos e enquadramentos dançam na coreografia do inusual, do que surpreende, do que indaga e do que instiga. Uma caminho, muitas possibilidades de percurso e lugares no foco de Inês Correa.

Tudo é palco para Dança Contemporânea em Domicílio


Você é um artista. Você tem uma entrega de dança para fazer. Você encontra a pessoa que vai receber sonada, com cara de “o que é isso”. Então você acorda seu público, explica a proposta, você detalha os procedimentos, e o recebedor topa. Então ele diz pra você dançar ali, no corredor estreito de um prédio da Praia de Botafogo, às 10h da manhã de sábado. Desperto, o venezuelano Leonardo Rodriguez, 34, vendedor, que está há duas semanas no Rio, festeja o presente enviado por uma amiga.

“Fui surpreendido, gostei de como se explicita o que o artista faz, por que faz. Foi uma ótima maneira de começar o dia”, desse Rodriguez.

Na casa da terapeuta corporal Katia Amaral, entrega no início da tarde, muitas indagações sobre o projeto, muitas questões partilhadas.

“É para fazer pensar sobre tudo, engloba todos os conceitos, inclusive a necessidade da arte como alimento, como feijão e arroz. A necessidade de criar também é nutridora. Isso certamente é novo e, em alguns lugares, alguns se sentem incomodados.”               

No Arpoador, na praia, no calor de mais de 35 graus, na metade da tarde. Na maratona do projeto Dança Contemporânea em Domicílio, Cláudia Müller entrega mais uma dança. Desta vez o público era a coreógrafa Ivana Barreto e a estudante de cinema Julia Menna Barreto.

“O que me atrai no trabalho é sua condição de deslocamento, a mobilidade que ele tem, sua capacidade de acontecer em pouco tempo, mas que faz uma diferença muito grande no meu dia. Aqui, a questão do tempo é importante. O trabalho acontece em pouco tempo, mas não passa rápido”, disse Ivana.

Julia tinha informações sobre o projeto, mas nunca assistira ao trabalho.

“Tem uma coisa que gosto muito que é a não necessidade de um espaço físico convencional, dele se apresentado em qualquer lugar. É bacana que ele prenda aos espaços fechados, que ele quebre regras e convenções.”

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Trânsito e trâmites da arte contemporânea

Falando em vocabulários, instâncias e inferências sobre e para a dança contemporânea brasileira, a imagem sugere uma nova visita, num espaço de muitos trâmites, quiçá também com trânsito para a arte contemporânea e suas vertentes. Mais um clic de Inês Correa.

Imagens para novos vocabulários (2)

Diante de Dançarinas Subindo a Escada, do impressionista Degas, exposta no CCBB/Rio, a professora de séries iniciais conversa com a amiga: “esta foi a primeira imagem que veio no Google... eu estava procurando imagens para a aula sobre dança”. Aí ela argumentou, ainda com a amiga, que, afinal, a ideia de bailarina é sempre o que surge na cabeça dos pequenos quando se fala de dança.  Poder assim, pode ser assado.
Interpelei a menina, numa conversa rápida, falando que ela poderia usar aquela e outras imagens, acrescendo a palavra “contemporânea” à pesquisa no portal. Certamente a diversidade de imagens e possibilidades para conversa com seus alunos seria outra, mais instigante e, na opinião que não manifestei lá, mas faço aqui, muito mais rica.
Aí volto para a entrega de dança feita para crianças de uma aula de teatro na Arena Cultural da Pavuna, semana passada. Muitas daquelas crianças nunca tinham assistido a um trabalho de dança. De qualquer tipo. Daí a potência desse encontro com uma das formas de se dançar na contemporaneidade.
Assim que a entrega terminou, as perguntas se sucederam:
“Ô, tia, só você dança isso?”
“Tia, foi você que criou os passos?”
“Tia, quando você vai aos lugares, é só no Rio de Janeiro?”
“Tia, você só faz dança ou também faz teatro?”
“Tia eu faço balé, mas ainda não dancei com sapatilha de ponta.”
Todas as perguntas apontam para questões relevantes e fundamentais na formação de público, na educação do gosto, na dinamização dos repertórios, com vetores que enriquecem a produção contemporânea hoje. As respostas são pontuais, devidamente circunstanciadas. Mas a experiência e a conversa destas crianças com um bailarino que os visitou, o olhar para algo novo em seu imaginário, e, principalmente, a possibilidade de perguntar são, dados pra lá de significativos dessa empreitada do Dança Contemporânea em Domicílio.

domingo, 28 de outubro de 2012

Imagens para novos vocabulários (1)


Acima, a obra Dançarinas subindo a escada, de Degas, que integra a exposição dos impressionistas, no CCBB, Rio.
 
Abaixo, Cláudia Müller numa entrega de dança para crianças de uma aula de teatro, na Arena Cultural Jovelina Pérola Negra, na Pavuna.
 
Por ora, apenas as duas imagens postadas, para atiçar a imaginação. No próximo post, algumas considerações sobre o movimento, os estereótipos, os tipos de dança e os repertórios possíveis de construção junto ao futuro público para a dança.



sábado, 27 de outubro de 2012

Das janelas, dos olhares, das conversas


O que pede o olhar, como responde o corpo, quantas frestas se abrem para as conversas sobre as possibilidades de comunicar com a dança? A imagem de Inês Correa feita na Lapa instiga esse diálogo.
 

Enquadramentos, focos, olhares

 
A ideia do corpo que dialoga com o ambiente, responde a ele e faz desse entorno o material de elaborações de sua própria dança, emerge nas diversas situações experimentadas durante as entregas do Dança Contemporânea em Domicílio.

Também a questão da linguagem, que só se efetiva a partir do olhar do outro, quando, enfim, o diálogo se circunstancia. São fragmentos de percepções para aquilo que se tem experimentado ao tocar a campainha de casas e apartamentos, ao se chegar a lojas ou restaurantes, ao adentar a uma das tantas escolas públicas municipais do Rio com suas grades, cadeados e segurança reforçada.

Nas entregas de sexta-feira, surpresa total para a professora de yoga Erica Humper, em Laranjeiras. Erica destacou a espontaneidade da performance, além da construção de um olhar específico para a arte e a dança.  E, ainda especialmente, o caráter questionador da obra em relação às frágeis condições para se produzir arte no Brasil:

“Tem que defender isso mesmo, pois, nesse país, é complicada a situação de quem trabalha com arte.”

Nesse trânsito e, em trânsito, segue a dança para a Glória, numa entrega a integrante da Projetéis – Cooperativa Carioca de Produção Cultural. A apresentação foi um momento inaugural para o caseiro Alexander Nascimento, 35.

“Nunca tinha assistido a alguma coisa assim. É algo maravilhoso, que mostra a capacidade do ser humano.”

A produtora Talita Caetano, 26, destacou o caráter de acessibilidade à dança contemporânea proporcionado pelo projeto.

“É completamente diferente essa possibilidade de se ter isso em casa. A acessibilidade é tal, que não há nada parecido. Ir à Pavuna, Bangu e tantos outros espaços é especial.”

Na casa da atriz e diretora Juliana Tolentino, mais identificações, mais encontros estéticos.

“É bom receber sensibilidade em casa. Estou para sair e saio para a rua muito tocada. E essa questão da produção de arte, da circulação, é permanente e deve sempre ser tocada.”

Na casa da atriz e produtora Rejane Zilles, que estava acompanhada da psicanalista Juliana Torres, a entrega gerou conversas animadas, debates.

“A ideia é genial, me tocou profundamente esse discurso sobre a arte, que sempre foi e será um lampejo, uma centelha, um disparador de muitas outras questões”, disse Juliana.

Para Rejane, a ação artística do Dança Contemporânea em Domicílio é mobilizadora:

“Como artista, o trabalho me tocou muito, deu um arrepio, é muito corajoso. Além disso, o formato é muito importante, pois aciona essa questão da democratização da dança, que tem mais dificuldade de chegar ao espectador do que o cinema ou o teatro, por exemplo. E o projeto é importante para mostrar o que é dança contemporânea algumas de suas propostas.”
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Contaminações possíveis da dança



O olhar que recebe, o corpo que anuncia, a vitalidade das ações artísticas, a eficiência dos encontros, as reverberações produzidas. Quantos e quais vetores dão gás à dança contemporânea brasileira?
 

O presente na casa dos Fragoso Costa


A tarde de quinta terminou com a família Fragoso Costa reunida na sala para receber uma Dança Contemporânea em Domicílio. Finda a apresentação, festejou-se mais do que a mesa coberta com delícias para o lanche da tarde. Foi um congraçamento entre adultos, adolescente e crianças.

“É um presente, uma entrega de carinho feita com muita leveza, transmitindo muita emoção”, disse Rosa Maria Costa.

“Legal”, sintetizou o pequeno Dudu.

“Foi um manifesto que mexeu comigo, uma capacidade de dizer isso em sintonia com os movimentos”, falou Fernando Motta, arboricultor.

Na esquina da performance com a arte militante

Numa esquina, na rua, na frente do café, em Laranjeiras. Na plateia, seis adultos, uma menininha e dois porteiros do prédio ao lado, que espiavam de pescoço alongado a performance de Claudia Müller. No inusitado do fim da tarde de quinta-feira, na paisagem possível, a interferência da arte, a contingência da aproximação de ideias e conceitos sobre o fazer artístico:
 
“A dança contemporânea aparece ali, em meio a outras coisas, da performance, do jardim. Nunca pensei exatamente no que seja arte, mas sim no prazer estético que algo me proporciona e, por extensão, me parece que seja arte”, disse Antonio Kevstenetzky, 20, estudante.
“Não conhecia o texto, que é militante em relação à arte em geral e à dança. É um trabalho que te tira do óbvio e te faz refletir sobre o tema”, disse a professora Lilian Koifman, 45.

Enquadramentos para arte e dança


Ateliê de consertos, oficina de customização, remendos, reparos. Espaço também para performance artística em Laranjeiras. A atendente e bailarina Katia Rocha, 22, ficou mobilizada pela dança ali entregue:

“Aproxima a cultura das pessoas e amplia o conceito de arte e de dança, que atualmente é um pouco limitado.”

O lugar do produtor, o lugar da arte


Artistas por vocação X artistas por profissão. Um embate quase fictício. Afinal, arte exige um sistema de produção e a imersão dos que a fazem numa série de estruturas. Talvez por isso quando um produtor cultural recebe uma Dança Contemporânea Em Domicílio fique tão mobilizado com algumas das questões que a proposta contempla. Quinta-feira à tarde, na Rua da Glória, um escritório de produção mobilizou-se em torno da entrega e da conversa que essa dança gera. A produtora Lu Araújo disse que parecia um discurso encomendado para ela.

“É o meu texto, as coisas que vivo. Querem me fazer chorar”.

A declaração teve eco na opinião da também produtora Simone Oliveira:

“(O trabalho) questiona o lugar da arte.”

Falas do corpo

No plano inclinado do Outeiro da Glória em movimento, num vértice do cotidiano carioca, o ascensorista Maxwell dos Santos, 63, assistiu ao trabalho de Cláudia Müller. Fico feliz com a chance. Contou que estava de olho no projeto desde que sabia da circulação em seu bairro, a Pavuna. Afirmou que consome arte desde que os tempos da “guerra de poesia” do rock, com a MPB. E deu sua sentença à proposta:
 “A pessoa quer falar com o corpo.”

"Uma imersão da palavra e da arte em nossa vida"


“É um trabalho genial, uma intervenção política e poética preciosa. Estou emocionada com a força do corpo em movimento e da palavra, que põe em xeque o sistema de trabalho do mundo e o empobrecimento da vida ancorada num sistema que dá visibilidade ao capital. Aproveitando essa ideia do delivery, que é do capital, entrega-se uma mercadoria que subverte esse sistema para inventar um novo sistema que conclame a vida. E com ironia, que funde emoção e riso, o que é muito bom. Trata-se de uma pílula de força, de um trabalho com movimento, uma imersão da palavra e da arte em nossa vida.”
 
Maria Cristina Franco Ferraz, professora da UFF e titular da ECO/UFRJ, que assistiu a uma entrega quinta-feira à tarde, durante uma aula de pilates, em Laranjeiras.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Que fazer?

O texto que segue é do escritor Leonardo Marona, que recebeu uma entrega quarta-feira à tarde, ali na Travessa do Ouvidor. Tão especial quando belezas e botas! 
 
 
"Entes pequenos, o que lhes falta para compreender? Ora, sabem os senhores, sabem que sem o inglês a humanidade ainda pode viver, sem a Alemanha pode, sem o homem russo é possível demais, sem a ciência pode, sem o pão pode, só não pode sem a beleza, porque nada mais restaria a fazer no mundo! Todo segredo está aí, toda toda a história está aí! A própria ciência não sobreviveria um minuto sem a beleza (...), ela se converteria em banalidade, não inventaria um prego!" (Os Demônios, Fiódor Dostoievski)
 
Talvez a última grande questão dos últimos dois séculos tenha sido: o que vale mais, Shakespeare ou um par de botas? É um questionamento que nos joga de cara numa parede sólida de dúvidas e contradições. Uma vez também disseram: "sem Pushkin pode-se passar, sem botas, não há como". O problema, me parece, é que os que estão famintos (nos mais múltiplos sentidos) não sabem o que fazer, enquanto que os que sabem o que fazer estão gordos (geralmente, em poucos, mas catastróficos sentidos) e bem alimentados, portanto não se mexem.
 
É plausível que alguém esteja agora pensando: "Mas que diabo isso tem a ver com dança contemporânea?" Posso responder, tudo, mas quase nada. Explico-me:
 
Ontem, no meio do trabalho, recebi um presente. Não era uma gravata, uma caixa de bombom, não era, como dizer, um presente comum, comumente mortificante, que recebemos cotidianamente e que nos lembram que a vida é comum o tempo todo e que vamos morrer. Porque, por melhor que seja receber uma gravata ou mesmo uma caixa de bombom, isso, no fim das contas, te lembra que tu vais morrer. Bom, o presente foi uma peça de dança no meio de oitenta mil livros, no meio do público de uma livraria, e para mim especialmente. E, acima de tudo isso, ou seja, acima da beleza disso, há na minha frente alguém que dança para mim e ao mesmo tempo me explica politicamente a batalha de quem está na minha frente dançando para mim. Nisso, voltamos duplamente à primeira questão: da beleza e das botas.
 
Precisamos comer, usar botas, mesmo um artista (sic), mas acima de tudo um artista, que é quem nos traz a beleza que torna possível suportar o mundo, este, mais do que qualquer outro, precisa comer, usar botas.
 
Ontem voltei e repousei feito uma pluma sobre a velha questão. Não resolvi a questão, como jamais talvez alguém resolverá. Mas pude ver o problema dentro dele, agraciado por ele de uma certa forma, porque era a arte que me falava.

Ligue e receba uma dança em casa!

Hoje é dia de entregas do Dança Contemporânea em Domicílio na Glória, Laranjeiras, Catete e Cosme Velho. Ainda existem horários disponíveis. Quer entregar uma dança para alguém? Ligue: 93007896! É grátis!

Portas para a dança


Qual o lugar da dança, quantos espaços tem o artista para atuar, em que porta bater? (A foto é de Inês Corrêa - clique em cima para vê-la maior)

Janelas, olhares, estranhamentos, repertórios

Desafios, encontros, olhares e estranhamentos numa quarta-feira intensa, perambulando pelo Centro do Rio. Numa agência de crédito, primeiro foi necessário explicar tudo direitinho para o gerente, que se preocupava com “o que aconteceria depois” ou “a finalidade disso”. Topada a ideia, ele e outras cinco funcionárias aplaudiram a apresentação.

Uma imbricada subida de escadas nos levou ao “alto lapa, baixo Santa”, como denominam o lugar alguns artistas e arte-educadores que vivem numa espécie de vizinhança de gostos, vontades e atuação. Ali, olhares atentos, alguns das janelas, numa significativa metáfora sobre frestas possíveis para a atuação do artista. Tanto aquele que, em determinada ocasião, vira público, quanto o que está ali, dançando no quintal, debaixo de uma aroeira.
“Fica o meu agradecimento ao artista que bem na minha casa lembrar que meu desejo é fazer arte. Não uma arte mercenária, que só pense em vender valores com os quais eu não compactuo. A ideia mostra que às vezes as pessoas podem fazer um gesto de gratidão através da arte”, disse Vanessa Lobo, 34, que é contadora de histórias e terapeuta.
Fabiano Manhães, 31, arte-educador, incluiu-se num das tantas questões abordadas pelo Dança em Domicílio.
“O mais bonito de tudo é ser surpreendido por algo inesperado, que é a arte, e pela questão que é a dicotomia da sobrevivência fazendo arte, essa questão do dinheiro versus a arte.”
Seguimos para a sede de um grupo de teatro na Lapa e, incrivelmente, fomos recebidos com estranhamento e certa distância. De novo, a questão dos repertórios e da disponibilidade emergiu. Vencida essa resistência, os seis integrantes que assistiram ao trabalho se identificaram com a proposta: “É o nosso dilema. A gente faz de tudo, até faxina para viver de arte”.
No salão de beleza, uma entrega que provocou emoção na cabelereira e psicanalista Jane Camacho. No vaivém dos afazeres, ela parecia estar distante do que acontecia ali, entre mesas de lavar cabelos, secadores e mesinhas de manicure. Mas, ao fim, abraços e lágrimas. O mesma carga de emoção envolveu uma secretária de um escritório de advocacia, no Centro.
 “Queria tanto essa leveza, ganhei o dia!”
“Para o bem ou para o mal, estamos mergulhados na mesma questão”, identificou-se a produtora Camila Martins, na Lapa.
O dia teve ainda duas entregas em repartições públicas municipais do Centro, finalizando com uma apresentação para Diana De Rose, gerente de dança da Secretaria Municipal de Cultura, que assistiu ao trabalho ao lado de colegas de sala.
“Esse formato é tão rico em termos de difusão. É essencial levar a dança a lugares fora do comum, dos espaços onde ela é esperada. Espero que Cláudia Müller tenha ideias assim”, comentou Diana.

Não, obrigado!

Nem todos querem receber Dança Contemporânea em Domicílio. Ontem, no Centro, o dia começou com um não. Foi dado por um empresário da Cinelândia, que estranhou a proposta, preocupou-se com o que diriam seus clientes. Talvez desconhecesse as novas estratégias com as quais a produção artística contemporânea tem buscado público. Talvez preferisse o repertório mais tradicional de dança, do qual se avizinha, ali, no Municipal. Em uma segunda negativa, a explicação mais prática e objetiva de quem receberia: “não tenho tempo, estou de saída”. Mas as entregas seguiram, intensas, durante todo o dia.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Toc, toc, toc


Alô, tem alguém aí?! Eu vim fazer uma entrega... (foto de Inês Corrêa)

A dança da estratégia de sobrevivência

Na exibição do Fora de Campo, terça-feira à noite, no Teatro Glaucio Gil, com participação da crítica Daniele Ávila, apontamentos sobre o sentido do gesto artístico, políticas de circulação e práticas culturais que reorganizem estas e tantas outras questões em torno da arte contemporânea. Dessas conversas, alguns pontos:

. Essa dança em trânsito do projeto e os jeitos de se organizar: como, ao lado de quem a favor de quais?

. A questão de entregar a dança como um produto e também uma estratégia para implementá-la.

. A dança dos encontros, das entregas, com um procedimento parecido como a entrega de remédios e de alimentos = dança tão necessária como comida e alívio/saúde. A conotação e eficácia dessa dança num contexto, nos contextos.

. Ranciére, de O Mestre Ignorante, numa citação sobre a igualdade como princípio.

. A recepção direta do público e a reversão/inversão dos códigos formais das danças formais.

. A formação de plateia: quais, quantas, como, onde? Os festivais de muito público que, depois, não é fidelizado no decorrer da temporada.

. Dúvidas, dilemas, desafios.
Para conhecer mais sobre o trabalho de Daniele Ávila e uma trupe bacana que escreve sobre teatro e artes leia a revsita eletrônica Questão de Crítica: http://www.questaodecritica.com.br/

Tempero da cultura, olhos marejados

Dia cheio, dia de muitas alegrias e certezas ontem, na Pavuna.
Alegria: chegar a um salão de beleza pequenininho, conversar com Maria Alves, 53 anos, ou Zilma, que é seu nome artístico, e ver a mudança do rosto dela na saída.
“É muito bom quando chega alguém assim e entrega uma dança pra você. Aconteceu uma coisa estranha: à medida que ela ia dançando, foi tirando o estresse do meu corpo. Foi como se o movimento dela me aliviasse.”
Segue a caravana do Dança Contemporânea em Domicílio, agora com parada na Escola Municipal Telêmaco Gonçalves Maia. Quem recebe é o diretor, Marcos de Oliveira fraga, 46 anos, que aplaude o presente.
“Em nosso país, o artista é pouco reconhecido. Por isso, esse é um trabalho legal. E surpreendente também. A Arena (Cultural Jovelina Pérola negra) faz um trabalho show de bola. Há uma necessidade de as pessoas buscarem cultura”, avaliou o professor, que é vizinho da atuante Arena Cultural Jovelina Pérola Negra.
Entrega versus entrega, eis-nos na sede do grupo William do Gás. Antes da dança, descobrimos a ação ecológica do empresário, que coleta óleo de cozinha para reciclagem. Na hora da dança, ele chama seus funcionários. Plateia de seis pessoas. Olhos marejados no corpo daqueles trabalhadores braçais. Edilson Wancok, 39, é um deles, vivendo momento inaugural na vida:
“É primeira vez que vejo uma apresentação tão próxima de mim. Para fazer isso tem que ter força de vontade, não?!”
Emocionado, William de Abreu, 47, também é dos que acredita que a região é carente de arte e que, de alguma forma, a Arena Cultural ajuda a reduzir essa carência.
“É um privilégio ter a Arena por perto. E uma apresentação dessa pega a gente de surpresa, sou fã desse diferencial.”
Meio dia e pouco, o tempero do restaurante Bacalhau de Tamanco ganhou tempero extra. Foi ali, entre mesas e clientes servidos de generosos pratos de arroz, feijão, farofa, peixe frito e outras delícias, que Cláudia Müller entregou dança para a empresária Fátima Souza.
Na avaliação do acepipe cultural, Fátima foi só elogios:
“Tudo que é cultura, que é levado para a população, é bem vindo. É uma emoção, uma energia boa que dá. Depois dessa apresentação fiquei melhor. E meus clientes aplaudiram também.”
Na casa de Zuila Goulart Amoreti, professora aposentada de 66 anos, entrega foi no quintal. Silenciosa, ela acompanhou tudo com atenção, elogiando o projeto no fim. O mesmo aconteceu na Escola Wilton Garcia. Depois de duvidar do que estava acontecendo e verificar a veracidade da entrega, a diretora Claudia Gonçalves Rezende assistiu à apresentação na área coletiva da escola, junto com um aluno que estava de castigo. No fim ela, comentou:
“Achei muito interessante, um desabafo do artista quanto ao patrocínio e produção. As pessoas não vêm o lado da arte, só o dinheiro.”

Vencendo obstáculos



Dança Contemporânea em Domicílio, em qualquer lugar, sob qualquer condições! A imagem feita por Inês Correa mostra Cláudia Müller untrapassando barreiras para entregar uma dança em bangu, segunda-feira, quando o bairro ainda contabilizava os estragos provocados pelo temporal de domingo à noite, que destelhou casas e derrubou árvores. Para visualizar melhor, clique em cima da foto!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Pavuna reforça certeza dessa dança


Quantos desejos, instabilidades e emoções batem à porta de quem recebe uma Dança Contemporânea em Domicílio? É uma questão que me ocorre agora que acabo de chegar da Pavuna, depois de várias entregas. Da professora aposentada à criançada da aula de teatro, incluindo os dois diretores de escolas em seu cotidiano de administração de alunos, burocracias, quadro de professores, instabilidade de fora da área da escola, muitas questões.
Depois de Cláudia Müller dançar, sensações afins. E a certeza da contundência do projeto. Aqui, agora, só um relato rapidinho. Mais tarde, preparo novo post com detalhes de cada personagem. Ah, sim: mais uma vez a certeza: a Pavuna é um lugar potente. E muito disso é resultado da presença significativa da Arena Cultural Jovelina Pérola Negra com seu importantíssimo trabalho de formação de plateia.

Não à toa, quando saíamos de lá, centenas de estudantes e gente da comunidade fazia fila para entrar na arena e assistir ao concerto da Orquestra Petrobrás. Demais!

No supermercado, no hospital, no clube



Uma pausa nas teclas de preços para ver uma dança. Foi assim que as duas atendentes de um supermercado de Bangu receberam sua dança, encomendada por um amigo. Do estranhamento ao deleita, foram dois toques.


“Adorei. Todo o que faz parte da dança e da arte é maravilhoso”, disse Maria Elizabete Leocádia, 49 anos.


Na hora do exame pré-natal, realizado no Centro Municipal de Saúde Wladimyr Frango, em Bangu, a grávida Jane Teixeira, 28 anos, recebeu a dança encomendada pelo marido Lourenço, que assistira ao videio Fora de Campo na Lona Cultural. Ficou lisonjeada como mostra a foto acima, feita por Inês Corrêa.


Quem assistiu com ela também:


“Linda a desenvoltura, os movimentos. Tá aprovado”, disse Lucinete Moraes de Oliveira, 60 anos.


O Pedra Branca Sport Clube estava deserto na segunda-feira à tarde. Zidane Alves Lima, 52 anos, radialista, abriu as portas do lugar para ali, no salão de festas, receber sua Dança Contemporânea em Domicílio. Depois da apresentação, contou que o espaço é também ocupado pela dança de salão e pela capoeira. Acha que a Zona Oeste precisa mais dança. Quer que o projeto volte mais para lá. Acredita que a dança ajuda, enleva.


“Aplausos para o artista”, exclamou Zidane, que aparece na foto abaixo, de Inês Corrêa. Para ver maior, clique em cima da imagem.



Uma dança para os Gregório de Bangu


Bangu contava os prejuízos e consertava suas casas nessa segunda-feira. Na Rua Tintureiro, boa parte das oitenta pessoas que moram em nova casas do número 769 estava nessa função. Crianças e adultos. E foram eles que, aos poucos, formaram a plateia da entrega de dança que Cláudia Müller fez ali mesmo, na entrada da espécie de vila improvisada. Seis, oito, dez, catorze pessoas assistiram ao trabalho. Encantadas, entre risos dos pequenos e olhares atentos dos adultos, a turma da família Gregório aplaudiu no fim. E sentiu-se pra lá de importante e aliviada num dia tão desafiador.
Luiziana Gregório, 25 anos, três filhos, assim se manifestou sobre o que vi:

“Isso traz tranquilidade, calma, paz. Gosto de teatro, de dança. Queria botar minhas filhas na dança. Só não vou mais ao teatro porque não tenho dinheiro. Isso realmente transmite paz pra gente. E o interessante é que ela veio aqui trazer.”

Na hora da despedida, Luiziana, uma das mais falantes integrantes da família Gregório deu seu veredito para a ação:

“Isso é cultura!”

Para ver melhor a foto de Inês Corrêa, clique sobre ela.

Hoje tem função na Pavuna e no Leme

Programa duplo do Dança Contemporânea em Domicílio nesta terça-feira: pela manhã e à tarde, entregas de dança na Pavuna. À noite, às 21h, no Teatro Glaucio Gil, exibição do vídeo Fora de Campo, com debate com a diretora e crítica Daniele Ávila. A entrada é franca. A exibição da produção co-dirigida por Cláudia Müller e Valeria Valenzuela  serve de “start” para os pedidos de entrega em Copacabana e no Leme, que serão dias 27 e 29. O fone é:  93007896.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Isto não é um texto

Inês Corrêa chegou! Fomos a Bangu, entregamos dança, ela fotografou, eu devo ainda fazer um post. O blog deve começar a ter imagens! Mas, inspiradora foi a conversa no fim da tarde, em Ipanema, "limpos" pelas águas de Iemanjá. Falamos sobre o que é fotojornalismo, foto publicitária, foto para dança, foco de trabalho e dos estudos dela. Daí que, como a partir de agora teremos fotos postadas e provocado por ela, arrisco-me a postar as fotos abaixo. Espero que os leitores consigam ver as imagens que descrevo. Só para quem não sabe: ao entregar danças, Cláudia Müller usa figurino laranja e lilás.
 
Foto 1

O casal se ajeita na rua estreita, ela ocupa uma cadeira, que vira sua arquibancada. Na casa ao lado, no portão, mãos penduradas, uma senhora negra de cabelos brancos, sem vários dos dentes da frente pita algo como um cigarro, na outra casa, da laje, um rapaz olha para baixo. Três meninos passam correndo, estourando estalinhos. Diante desse quadro, um borrão lilás-alaranjado se move.

Foto 2

Há uma mureta, seis pessoas sentadas nela. Cinco mulheres, um travesti. Ele ri, melhor, ele sorri. Atrás deles, mais gente. Barulho das motocicletas intermitentes das ruas da Maré. No outro lado da rua, pagode tocando solto na máquina de música. Numa das mesas, quatro rapazes bebem uísque e mordiscam algo. Na outra mesa, recém-ocupada, dois rapazes tatuados e uma negra charmosa servem cerveja gelada. Entre os dois grupos, um borrão lilás-alaranjado se move.

Foto 3

É quase noite, as ruas da Maré ficam mais escuras. Mesmo na transição da tarde para a noite, as crianças seguem soltas. Numa que outra esquina, o comércio endola. Não há muita preocupação por quem passa. No meio do quarteirão, num boteco, o trio de rapazes divide cervejas. Um deles acena ao ver uma mancha tripla lilás-alaranjada cruzando.
 

Hoje tem entregas em Bangu

Dia de voltar a Bangu! Daqui a pouco, a van do projeto Dança Contemporânea em Domicílio parte da Casa da Glória rumo ao bairro, para as entregas. E hoje tem a companhia bacana de Inês Corrêa, fotógrafa que vai registrar esse processo todo em imagens! Para amanhã, entregas na Pavuna! Pedidos pelo fone: 93007896.

A poesia possível numa entrega de dança

“Que tipo de poesia você faz?” Essa foi a pergunta do garoto Renato Habib Costa, 12 anos, assim que assistiu à exibição de Fora de Campo, sábado, às 15h, no Parque das Ruínas, em Santa Teresa. Cláudia Müller explicou que a citação sobre poesia, feita numa fala anterior, se referia a um estudante de 16 anos da Pavuna, que lhe perguntara sobre método de criação, revelando que faz teatro e tenta escrever poesias.

Fiquei particularmente feliz com a pergunta. Num dos trechos da exibição do vídeo, uma das falas é de que “a poesia está no entre...”. Falam o menino e a senhora, sobre uma poética que, mesmo não explicita, pulsa em Dança Contemporânea em Domicílio. Ela diz respeito ao encontro, à confiança no diálogo, à partilha de desejos e esperança, à aposta nas relações. Brinquei com o garoto dizendo que Cláudia faz, sim, poesia. São versos sobre amizade, urgência, toque, afetos, diálogos, delicadezas, solidão, urgências.

A forma como as entregas emocionam o público é pura poesia. Provocam emoção, acionam lembranças, atiçam desejos e sonhos. Feliz por ter pedido uma dança para seu cabeleireiro, Neilde Barcelos, 51 anos, auxiliar administrativo, moradora da Maré, disse que uma entrega como a proporcionada pelo projeto “é pura alegria”. E continuou:

“Nem todo mundo sabe o que dança contemporânea. Poderia ter mais pessoas para levar dança em qualquer lugar, sem barreiras. Vir a um a comunidade como a Maré foi bacana demais.”

Esse trânsito entre o conceito e a estética, numa ação potente de significados, aciona outros tantos “entres” de Dança Contemporânea em Domicílio. Entre o arrojo e a simplicidade, entre o discurso e a prática, entre a vontade de tocar pela delicadeza e a necessidade de ser agressivamente significativa. Cada movimento, cada fala, cada verso, cada poesia. Afinal, o corpo contemporâneo é o somatório disso tudo e mais.
 

domingo, 21 de outubro de 2012

Olhar fotográfico para a dança

Inês Corrêa é pesquisadora e fotojornalista, mestranda em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo. Foi fotógrafa colaboradora da Folha de S Paulo e Folha da Tarde e produtora executiva do programa sobre desenvolvimento sustentável Espaço do Litoral, TV Cultura - Litoral. É repórter fotográfica da agência P.A.P.A – Participating Artists Press Agency, sediada em Amsterdã - Holanda, coordenada por Lino Hellings, socióloga. Começou a fotografar teatro e dança no Teatro Coletivo, antigo Teatro Fábrica e realiza trabalhos profissionais para Cia. Taanteatro; Keyzetta e Cia.; Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira Cia. de Dança, Cia. Borelli de Dança, Cia. Flutuante, Grupo Gestus, Cristian Duarte, Emilie Sugai, Júlia Rocha, Gícia Amorim, Eduardo Fukushima, Diogo Granato, Raul Rachou e Helena Bastos entre outros. Também é Membro do CED - Centro de Estudos em Dança (PUC/SP). Neste domingo, Inês chega se junta ao Projeto Dança Contemporânea em Domicílio para registros das entregas que estão sendo feitas por 15 bairros cariocas. Aqui, um papo com a profissional sobre as nuances de seu trabalho, que tem focado a dança com significativa propriedade.


- Qual a especificidade da fotografia de dança, o que ela exige do profissional?
A fotografia de dança, como a fotografia de qualquer coisa – gastronomia, turismo, natureza, política, guerra –, tem sim sua especificidade, Carlinhos. Vou começar a responder sua pergunta refletindo primeiro sobre como buscar esta especificidade. Penso que para encontrá-la o que é exigido de um profissional antes de qualquer coisa, é envolvimento, ou seja, o fotógrafo fotografa aquilo que afeta sua percepção. Mas como se envolver sem se apaixonar para um contato mais próximo, mais íntimo? Porque escolheria a dança para meu fazer fotográfico se gostasse mais de futebol ou de guerra? Esta escolha do fazer o que se gosta pode ajudar, e muito, no encontro das especificidades desta fotografia, desta escrita da luz do movimento. Para que aconteça um encontro mútuo: fotografia-dança, dança-fotografia. Um querer se encontrar. Escolher a dança para criar uma imagem é se deparar com o corpo em movimento contínuo no espaçotempo.


- Na tua proposta em especial, o que interessa na hora de fazer uma foto/ensaio?
Existem muitas pesquisas diferentes acontecendo na dança. Um universo que vem em direção da fotografia. Como sou jornalista, como você Carlinhos, imagino que o que me interessa é a diversidade dela, da dança. Sou curiosa, quero conhecer, muitas, se puder todas as propostas que acontecem em dança hoje. Na hora da foto o interesse pode mudar. Dependendo do que tenho para fotografar. Não consigo pensar num único olhar fotográfico para propostas tão distintas. Perceber as diferentes propostas e “traduzi-las” em imagem fotográfica depende de muitas escolhas que acontecem na hora da foto. Não há um manual de instrução, há um querer ver aquele objeto em memória, querer criar uma memória da dança utilizando-se da fotografia.


- Por que a dança te atrai profissionalmente?
Sempre digo, Carlinhos, que a dança mudou meu olhar, meu fazer fotográfico. Olhar a dança e torná-la imagem fotográfica é algo que me inquieta. Ao fotografar começo pela luz, afinal, fotografia quer dizer grafia da luz. Depois a dança me capta pelo movimento do corpo e, consequentemente o tempo fotográfico deste corpo. Olhar a dança hoje, estas danças que acontecem atualmente, para mim, é ter contato com o tempo de agora para guardar a memória deste tempo, deste corpo que se expõe em dança, em movimento. É fazer deste fato um acontecimento.


- O que te mobiliza em especial nesse projeto Dança Contemporânea em Domicílio?
Fotografo dança somente desde 2007 e, quando a Cláudia Müller entrou em contato comigo e propôs que eu fotografasse o Dança Contemporânea em Domicílio foi uma honra porque o trabalho que ela sugere é inusitado. Por outro lado, ficou muito claro para mim o que falei logo acima, sobre o gostar do que se faz e quanto isso nos leva ao encontro, neste caso dança-fotografia, proporcionado pela Cláudia ao me escolher para fotografar seu projeto e fotografia-dança, que será a forma como vou expressar em imagem o Dança Contemporânea em Domicílio.


- Como você acompanha a cena da dança brasileira, o que pensa sobre ela?
Bom, Carlinhos, não vejo uma cena da dança brasileira. Vejo muitas cenas. E é isso que me faz querer mais e mais fotografar dança. Porém não sou a pessoa mais indicada para falar sobre dança. Existem profissionais especializados. Mas posso falar sobre a fotografia de dança que pode tornar visível esta cena ou aquela, fazer uma cena sair de um domicílio e entrar em outro em forma de imagem, deslocar o palco para o papel, para a internet.


- Você está com um projeto específico? Qual?
Estou preparando uma dissertação de mestrado na PUC-SP e meu objeto de estudo é a fotografia de dança e como ela pode contribuir para uma reflexão sobre o papel da fotografia jornalística com recorte no jornalismo cultural. Ou seja, neste projeto a ideia é propor uma reformulação dos critérios de publicação das fotografias jornalísticas no campo do jornalismo cultural.
Para acompanhar outros trabalhos de Inês Corrêa, seguem dois links bacanas, do site e do blog que ela mantém:


sábado, 20 de outubro de 2012

Muitos movimentos da Maré

Adriana estava num dia especial. Ontem 19 de outubro, era seu aniversário. No meio da tarde, Cláudia Müller grita pelo seu nome, em gente ao número 41 da Rua santa Rita, na comunidade de Nova Holanda, na Maré. Rita desceu com o marido e recebeu a entrega ali na rua, Assim, os vizinhos também veriam, raciocinou. Ao fim, disse:
“Parabéns pelo despojamento, você é uma artista”.
O veredito de um dos 135 mil habitantes das 17 comunidades da Maré sinaliza a potência do gesto da artista, que, em mais uma etapa do projeto dança Contemporânea Contemporânea em Domicílio, circulou por vários pontos da comunidade fazendo suas entregas.
Na primeira delas, a cozinheira Michelle Oliveira 34 anos, parou suas tarefas na Lona Cultural para assistir ao trabalho, entregue ali, em frente ao prédio.
“Você trabalha numa cozinha e aí vem alguém dar algo assim pra você, é muito legal”, disse Michelle, toda feliz.
Michelle, Adriana e outros tantos recebiam suas danças com certo ar de incredulidade. Afinal, seus espaços de trabalho, sua rua e casa, viraram palco, sala de apresentações, ambiente de produção de arte.
Sobre formas de produção e de circulação girou a conversa com os alunos do Coletivo de Dança da Escola Livre de Dança do Centro de Artes da Maré Núcleo 2. Parte da turma já tinha assistido ao vídeo Fora de Campo e, na sexta, recebeu uma dança. Os sentidos de dança, os espaços possíveis para fazer arte, as condições e as estruturas de produção e circulação de dança contemporânea no Brasil ou fora dele foram tocados na roda de conversa, que teve a presença da coreógrafa Lia Rodrigues, cuja sede de suam companhia é na Maré.
Novo caminho, então, na imbricada malha de ruas e Vielas da Maré. Chegando ao departamento financeiro do Redes de Desenvolvimento da Maré, a acolhida teve esse sentido:
“Altera a rotina, com um texto contestador”, disse, entre outras coisas, Cazé, que recebeu a entrega dos alunos do Centro de Artes.
Na Maré foi um pouco assim, tocante e mobilizador. E esse é só um fragmento do que rolou por lá.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Hoje Maré, amanhã Santa Teresa

Vai uma dancinha aí? As entregas de hoje serão daqui a pouco, no Complexo da Maré. Amanhã tem projeção do vídeo Fora de Campo às 15h, no Parque das Ruínas, em Santa Teresa. Depois, eu, Carlinhos Santos, vou intermediar a convesa con Clúadia Müller sobre o vídeo e o projeto Dança Contemporânea em Domicílio. Aparece lá!

Pavuna que pulsa

Três escolas rodeiam a Arena Cultural Jovelina Pérola Negra na Pavuna. Uma praça também abraça o espaço, que é o centro dessa paisagem. Esse é um dos dados significativos para o ambiente, o contexto e as repercussões do que se deu quinta-feira à noite, quando foi exibido o vídeo Fora de Campo, antecedendo à maratona de entregas do projeto Dança Contemporânea Em Domicílio, que vai rolar na terça-feira por lá. No encontro, a pesquisadora Eleonora Fabião intermediou a conversa com Cláudia Müller, acompanhada por um público de estudantes e professores em sua maioria.
 
Na interlocução, um primeiro movimento/registro: sobre o processo de criação do artista, seus cadernos de anotações, cadernos de ideias, leituras, imagens, procedimentos recorrentes. Eleonora fez questão de pontuar essa instância: ideias não são produto de geração espontânea, “não são só iluminação”. Ideias artísticas são rede de informações conectadas, trabalho sistêmico. “Não sei dançar sem ler um livro”, exemplificou Cláudia.

Seguindo, a pesquisadora propôs um olhar sobre a inserção desse projeto (e da arte) no sistema econômico, refutando a ideia de que a gratuidade da arte em muitos casos seja uma dádiva, que não há (ou deva haver) pagamento para ela. Aí, refletiu-se sobre os sistemas de circulação de projetos/propostas, do cruzamento entre espaços de circulação público e privado que o Dança Contemporânea em Domicílio promove. “Uma conversa entre corpo público e corpo privado”, frisou Eleonora. Esses “dentro e foras” revisam sistemas de relações, borram suas contingências. Afinal, como Claudia diz perseguir em seu trabalho, o fundamental está em ver o público, encontrar com ele, apostar no diálogo possível.

Então, mais uma instância para reflexão, a dos ambientes formais e tradicionais e os outros espaços para se produzir arte, as questões em torno de características de um tipo de obra: sobre dança com ou sem música, sobre os tipos possíveis de dança. Nesse caso, Eleonora exemplifica: “um espaço, uma arquitetura, esses banquinhos azuis dançam a gente, geram uma dinâmica, uma coreografia, nos ritmizam”.

Buscando falas do vídeo, Eleonora ponderou sobre os benefícios da arte. “... faz as coisas circularem...”, diz uma das personagens do vídeo. “Essa circulação é saúde”, frisa Eleonora. “Essa aproximação entre estética e saúde é fundamental, acredita a pesquisadora. Gerar um corpo é estar em transformação. A arte permite que o humano encontre o humano.”
Outro fragmento do vídeo: “... a arte vai a lugares que ninguém vê...”. Mas, no palco, se vê. Mas, de novo, existem muitas outras frestas possíveis para esta visibilidade. “Em Cláudia, o cotidiano salta aos olhos”, destaca Eleonora. Por isso, segue ela em seu raciocínio, um trabalho como Dança Contemporânea em Domicílio, tem a capacidade de “quebrar a moldura” entre a convenção (do palco, da tela, do museu) e o inovação (da rua, da barca de Niterói, do banco, da UTI de um hospital - lugares que já tiveram entregas de dança). “A humanidade é a riqueza”, diz Eleonora.

No eco dessas reflexões, alguém da plateia frisou: “Nesse trabalho, o que se move é o artista”.

Mas a noite, produtiva que só, teve mais reflexões pulsantes. Noutro eixo da conversa, falou-se sobre espaços de exibição, estruturas possíveis de circulação, festivais. Cláudia historiou com Dança Contemporânea em Domicílio construiu-se em festivais. Por isso, refletiu Eleonora, é preciso investir em estruturas vivíveis em invisíveis para circulação das novas práticas artísticas. Por isso, é fundamental acreditar nessa coreografia com o público. Pois, se o que se busca também é uma dança que tenha estrutura, é fundamental essa conversa com as pessoas.

Por isso a Pavuna pulsante que recebeu o projeto não pode mais se pensar como uma (ótima) estrutura e projeto cultura periférico. Sediado encontro como os de quinta-feira à noite, apostando na formação de público, e incrementando sua agenda, Pavuna é o centro de novas e potentes realidades.